O Palhaço e Ministro - Cristina Branco
Do que espanta um surdo mudo
Dos jardins alé m do muro
Venho aqui pra vos contar
Dentro de uma catarata
Num palá cio de ouro e prata
Ouç o algué m a soluç ar
É um reizinho tã o tristonho
Um menino com maus sonhos
Sem ningué m para o aconchegar
Sua mã e caiu a um poç o
E o rei pai num calabouç o
Ningué m os pô de salvar
É agora o ministro
Tã o sisudo e bem sinistro
Que no reino vai mandar
O pequeno rei só chora
Junta as mã os e ao cé u implora
Para um raio o fulminar
Quem ajuda o nosso rei
Quem ajuda o nosso rei
Nunca mais foi visto a rir
Diz o povo a chorar
Quem nos pode acudir
Salvem o nosso rei
Chegam magos alquimistas
Mais mé dicos dentistas
A ver se o tentam curar
Mas o rei nã o tuge ou muge
Está verdinho como musgo
No seu leito a vegetar
O ministro furibundo
Manda arautos pelo mundo
Pra uma cura encontrar
E com a mã o na guilhotina
Diz que vai cortar a espinha
À quele que fracassar
Muitos sá bios vã o chegando
E as cabeç as vã o rolando
Até um homem falar
De pê lo e nariz postiç o
Anuncia ao ministro
Talvez eu o possa curar
O palhaç o cura o rei
O palhaç o cura o rei
Diz a corte inteira a rir
Diz o povo a chorar
Quem nos pode acudir
Salvem o nosso rei
O palhaç o pula e danç a
Estica fura e explode a panç a
Faz mil truques de encantar
Ele transforma o vinho em á gua
Faz esparguete de uma tá bua
E flutua pelo ar
Mas o rei quieto e mudo
Amarelo e macambú zio
Mal parece existir
E o palhaç o sem maneiras
Tira a penca e cabeleiras
Pra o ministro as vestir
Eis que o grande carrancudo
Com a penca e cabeludo
Fica lindo de morrer
E o rei dá tal gargalhada
Qual canhã o ou trovoada
Que o palá cio faz tremer
Ele salvou o nosso rei
Ele salvou o nosso rei
Olhem só pra ele rir
Diz o povo a aclamar
O palhaç o é o seu vizir
Viva o nosso rei
O ministro pró palhaç o
Diz ó meu amigalhaç o
Nã o quer ser meu professor
Sempre quis ser divertido
E farei de si grã o fino
Se aceitar ser meu tutor
Mas o outro diz amigo
Da onç a eu nã o preciso
Nem do ouro que roubou
Ser palhaç o é um castigo
Nã o se ensina tal destino
A quem o rei pai matou
E o ministro com o cacete
Logo aponta o gasganete
Com caretas de rancor
Num segundo a guilhotina
Corta o palhaç o em tiras
E o rei cai num estupor
Quem ajuda o nosso rei
Quem ajuda o nosso rei
Nunca mais foi visto a rir
Diz o povo a chorar
Quem nos pode acudir
Salvem o nosso rei
Quem ajuda o nosso rei
Quem ajuda o nosso rei
Nunca mais foi visto a rir
Diz o povo a chorar
Quem nos pode acudir
Salvem o nosso rei